Morrer em missões ou viver em missões? Por Teófilo Karkle
MISSÕES 19/12/2015 - 11:00
 
 
"Passei pelo vale da sombra e da morte, e o Senhor estava comigo."
 
Verão de 2008, mês de janeiro, capital do Chile, um dia em que jamais vou esquecer. Depois de 55 dias do falecimento do meu querido pai, aos 77 anos de vida, Presbítero Harry Karkle, eu vi a morte rondando ao lado de minha cama, e neste momento eu confesso que não estava preparado para morrer.

 Nas três noites anteriores, antes de adoecer, eu comecei a sentir meu corpo febril, a medida que baixava a temperatura elevada do sol chileno com a chegada da noite, subia a temperatura do meu corpo em febre, a ponto de arder os meus ossos, pensando que era uma forte gripe, nada fiz para ir ao médico naquela hora.

Eu estava sozinho com os meus três filhos pequenos, mas o que marcou muito a minha vida naquele momento, faz ressaltar na minha memória, foi o que fazia a minha filha Karen de 9 anos, para baixar minha febre, ela molhava uns paninhos e colocava na minha testa para refrescar e baixar a temperatura, ela quase nem dormia para poder me atender. Minhas duas filhas Katherin e Karen cantavam juntas um louvor em espanhol muito lindo, que diz assim:

”Levanto mis manos, aunque no tenga fuerzas, levanto mis manos, aunque tenga mil problemas. Cuando levantos mis manos comienzo a sentir, una uncion que me hace cantar, cuando levanto mis manos comienzo a sentir el fuego. Cuando levanto mi manos mis cargas se van, nuevas fuerzas Tu me das todo esto es posible, todo esto es posible, cuando levanto mis manos.”

Comecei a ter delírios da morte, ter sonhos, pesadelos e falava alto nos momentos que conseguia dormir. Quando a febre estava começando na terceira noite, pedi uma Coca-Cola pequena para tomar, pois minha boca estava seca da febre, e um prato de miojo, o qual não consegui comer nem a metade, nem beber aqueles 300 ml de refrigerante.

De repente a temperatura subiu tanto que não conseguia mais respirar, mas estava consciente, então comecei a ver a morte nesta hora a rondar minha vida, estava já convulsionando, eu estava morrendo, estava faltando ar, não podia mais respirar, a sensação era de sufocamento, foi horrível nesta hora.

Meus três filhos tratavam de abanar com umas pastas de documentos mas não era suficiente, eu ainda consegui pedir que trouxessem o ventilador de pé. Enquanto sem ar, puxava os últimos fôlegos diante do vento do ventilador, pois parecia que a cada segundo que passava estava mais e mais sem ar, parecia que estava me afogando. Meu filho mais velho, Karlys ligou urgente para um irmão da igreja que vivia a uns 12 km da igreja.

Pela providência de Deus, esse irmão, por nome Ricardo estava a caminho da igreja, em menos de 8 minutos ele chegou lá onde eu estava agonizando, até na manobra do veículo ele tocou levemente no portão com o carro.

Eu não conseguia respirar, nem segurar minha cabeça, não conseguia equilibrar ela, pois sentia nos meus dois ouvidos como se estivesse girando uma grande roda de vento, uma de cada lado. Neste momento, me enrolam num cobertor e me colocaram dentro do carro do irmão Ricardo, para levar-me ao hospital. Rapidamente chegamos, por sorte vivia perto de um hospital chamado Sotero del Río, talvez dois quilômetros.

Sentia que ia morrer dentro do carro, não daria tempo de me conectarem em um respirador artificial, mas o irmão Ricardo no meio do trajeto parou na casa de outro irmão que hoje é Pastor por nome Marcelo, para que orassem por mim. Eu ouvia entre lágrimas eles orando por mim e diziam frases assim: Senhor, por favor, não deixa nosso pastor morrer. Eles repreendiam o espírito da morte. Eu não tinha forças nem de orar, nem de dizer nada.

Já na porta da urgência, os atendentes disseram que deveria esperar, e os irmãos diziam: Ele é nosso Pastor e é brasileiro, ele não consegue ficar em pé. Neste minuto vomitei ali na recepção, algo amargo parecendo veneno que saiu de minha boca.

Deus na sua misericórdia fez que estivesse ali no hospital, um policial evangélico o qual o seu irmão era ministro de louvor na minha igreja. Se não fosse ele eu morreria nos braços dos dois irmãos com 43 graus de temperatura corporal, estava com uma febre muito alta.

Ele, o policial evangélico, usando sua farda cor verde abacate, entrou na sala de urgência e saiu com dois enfermeiros empurrando uma maca onde me colocaram deitado, e logo colocaram eu no oxigênio. De outro lado da cama colocaram aquele aparelho para ressuscitar, ainda bem que não foi preciso usar, graças ao bom Deus.

Em questão de cinco minutos veio um personagem e passou na minha testa um líquido cremoso, refrescante e cheiroso, era um padre me dando a extrema-unção. Até gostei daquilo, mas pensei, será que eles estão vendo eu tão mal assim? Então eu vou morrer?

As enfermeiras tiraram a minha roupa, suja de vômito e de urina, pois tinha urinado na calça, todo babado, e me deram um banho encima daquela maca, a água estava um pouco fria. Colocaram uma sonda para urinar, mas apenas queimava aquela mangueira e nada saia de urina. Quando eu pude dizer algumas palavras disse: Tem como aumentar esse oxigênio, não estou conseguindo respirar bem? Mudaram então e colocaram uma máscara maior, então me senti um pouco melhor daquela sensação asfixiante da falta de ar.

Quando olho para a cortina que me separava dos demais, dentro daquela urgência, vi o filho do irmão Ricardo o Cristian. Eu disse: - Vocês não irão para casa dormir? - "Não Pastor, já amanheceu o dia e eu vim aqui para te acompanhar na ambulância para o Hospital dos Infecciosos - Barros Luco." - "Os médicos não sabem o que você tem, você precisará fazer uma bateria de exames para que os médicos descubram que doença você tem, assim que darás um passeio de ambulância"

Não vi passar a noite, não dormi essa noite, não tinha como dormir. Dentro da ambulância que pensei que seria algo suave meu translado, nada disso, aquela ambulância chacoalhava toda, me deixando mais tonto do que estava, parecia mais uma carroça. Foram eternos 15 minutos e que não chegava nunca ao novo hospital onde seria internado.

Me colocaram num quarto da UTI, começaram os exames, pois ninguém sabia o que eu tinha. Na primeira noite, neste quarto da UTI, talvez no meio da noite morreu o senhor que estava na cama ao lado da minha. E eu dizia: o próximo agora será eu? Minha cama tinha cerquinha e eu ficava com uma das mãos segurando nela, e o meu pé eu apertava também na cerquinha no pé da cama, pois perdi os reflexo e não sentia meu corpo na cama, a sensação era horrível, parece que o corpo ia sair do lugar.

Fizeram três exames nos meus pulmões, me injetam um gás pela boca, a fim de que eu tossisse para pegar alguma substância na minha garganta. Fizeram eco tomografia. Trouxeram especialista de enfermidades tropicais. Então perguntaram ao irmão Cristian se ele era meu parceiro sexual. O irmão Cristian ficou muito bravo com essa pergunta: Vocês estão loucos, ele é o meu pastor.

Na terceira noite sem dormir, eu pedia algo que me dessem para dormir, mas me negaram, por que diziam: se nós dermos algo para você dormir você vai esquecer de respirar e aí sim você morrerá.

Lembro-me das dificuldades de fazer minhas necessidades fisiológicas na cama e eles vinham e me davam banho deitado, apenas passando paninhos úmidos.

Logo a igreja inteira já sabia que seu pastor estava entre a vida e a morte. Começaram as visitas, os irmãos entravam com avental, máscara na boca, lavavam as mãos numa pia dentro do quarto para poder falar comigo. Eu não tinha condições de falar, algumas visitas foram boas, rápidas, eles oravam por mim e saiam chorando.

Já na porta olhavam para mim e me davam um adeus, eu pensava o médico deve ter dito que vou morrer, pois estão vindo todos se despedirem. Hoje eu sei da importância de uma visita, ela tem que ser rápida, e nem precisa perguntar nada. A oração tem que ser inteligente, não muito forte. Nem precisa tocar o corpo, apenas orar pelo enfermo.

Passei 18 dias na UTI, perdi 18 quilos, a primeira vez que olhei num espelho, me senti tão feio, magro, barbudo, só o nariz ficou igual. Sei lá, ninguém me fez a barba, parecia não ser eu.

Veio o Fisioterapeuta, e me disse, venho ensinar você a caminhar: Eu brinquei com ele: Isso, eu já sei, respondi. Não, você tem um vírus muito forte, que não sabemos o que é, mas sua musculatura está totalmente travada. De fato, ele me colocou em pé e disse você vai levantar o pé direito 10 vezes e depois o esquerdo. Que sacrifício foi aquele exercício, eu não tinha forças, isso por que era apenas para levantar o pé.

Um dia antes de sair da UTI, me deram um burrinho para que eu caminhasse levando aquele apoio na minha frente e puxando um galão de oxigênio em outro carrinho com quatro rodas que se movia com facilidade. O primeiro banho que tomei sozinho, fiquei o tempo todo agarrado na torneira para não cair, não sentia meu pé no chão, como que o chão daquele banheiro era abaloado, redondo, era muito estranho. Sentia apenas o garrão do pé no chão, e a ponta do pé não sentia nada.

Comecei depois que sai da UTI, dizer para Deus, que se Ele me tirasse daquele sofrimento, daquela angustia, que me desse vida novamente, eu queria orar pelos enfermos, mas eu queria ver a enfermidade dentro dos corpos das pessoas.

Quando uma bela tarde entrava uma brisa pela janela, de um pequeno quarto, onde eu estava sozinho, eu ali limpando o prato com um pedaço de pão, a comida era um purê, encontrei que a comida era muito pouca, por isso juntava o restinho da comida do prato, quando ouvi na minha alma a voz do meu Deus, dizendo: "Teófilo, nós precisamos tomar um café junto!" Nossa! Isso foi maravilhoso e surpreendente saber que Deus estava ali ao meu lado, enquanto eu juntava o restinho daquela comida sem sabor.

Entendi a voz de Deus no meu coração, que dizia: "Eu não vou mostrar as enfermidades físicas como me pedes, mas vou mostrar as enfermidades das almas, que milhões sofrem em todo mundo, até mesmo dentro das igrejas. Dores do luto, do divórcio, da desilusão, das perdas materiais e amorosas."

Pedi que me trouxessem um caderno, eu precisava e queria escrever, era urgente o que sentia naquela hora, ali começou a nascer meu livro VIVER DE MISSÕES. No meio da saudade, no meio da fraqueza, no meio da solidão, no meio da separação de um casamento falido, no meio de tantas mentiras e no meio de uma grande dor. Sem dinheiro, sem poder ver meus filhos, porque eles não podiam entrar, eram crianças. Sem saber nada de minha casa, sem poder me comunicar com minha mãe no Brasil, recentemente viúva.

Nesta altura, mais chorava do que escrevia. O título do livro poderia ser: "MORRER EM MISSÕES ", mas o Espírito Santo me dizia assim: "eu fiz você VIVER DE MISSÕES todos os dias, você vai sair daqui professor de Adversidade, para poder consolar a outros que passarem por uma situação assim, como a sua."

Muitas coisas aconteceram comigo ali, minhas costas se encheram de bolinhas, pontinhos, como uma brotoeja bem agressiva, por estar tanto tempo deitado. Tinha que passar um creme, um corticóide, mas não tinha ninguém que me ajudasse neste momento. Então tive a ideia de preparar uma faixa e colocar no meio da faixa aquele remédio e com isso conseguia passar nas minhas costas, como uma pessoa que se seca com uma toalha ao sair da ducha do banho.

Minha boca se encheu de feridas e aftas, eu não sentia o sabor nem o cheiro da comida, apenas comia aquelas pequenas porções religiosamente as 17:30 horas, horário da minha janta. Teve uma noite que mediram a urina acumulada, e se juntou-se 7 litros e 100 ml, creio que neste momento saiu por ali toda a infecção que estava em meu corpo.

Fiquei muito conhecido e famoso naquele quartinho (risos), só eu estava naquele quarto, noite vinha e dia raiava. O zelador queria aprender a falar o português. Outro padre me trazia revistas usadas para ler duas vezes por semana, eu podia escolher que tipo de revista eu queria.

Algumas enfermeiras vinham junto e diziam você é nosso paciente "Regalón" me tratavam com muito carinho, mais deixaram minha barriga preta de tantas injeções, os braços também, até, faltou lugar para aplicar mais uma agulha.

Sai daquele hospital dia 12 de fevereiro, antes do tempo, sentado numa cadeira de rodas, levado por um taxista conhecido, um irmão em Cristo de outra igreja. Ele me contou depois que levou meu sangue num laboratório mais sofisticado para ser examinado. Ele dizia rindo: ”Andei com o teu sangue dentro do meu táxi para lá e para cá, Teófilo."

Só no segundo retorno que me contaram o milagre, eu estava ainda muito debilitado e magro, foram diminuindo cada dia menos um comprimido dos corticóides. A doutora que fazia meus retornos disse: "Muchacho, quase que você nos deixou."

Então perguntei para ela, por que doutora? Indaguei: Você estava com o Vírus da Leptospirosis, e ele é mortal, com sorte não atingiu teu fígado, senão você não estaria aqui.

Esse vírus, eu contraí na época do falecimento do meu pai em Urubici - SC. Como ele era agricultor rural e plantava milho, tive que processar 80 sacas do milho que ele tinha num paiol na casa dele, para ajudar nos gastos do seu funeral. O milho ainda era do inverno, já estava a seis meses estocado, com muito pó e cheio de ratos grandes e filhotinhos.

Esse vírus é mortal, os médicos me falaram que eu fui atingido nos pulmões, na musculatura e nos rins, estiveram a ponto de fazer hemodiálise. Mas nas 36 visitas que recebi, cada uma delas oraram por mim, e de repente todos os exames começaram a baixar os índices negativos que estavam alto, como a creatinina, foram diminuindo ponto a ponto, número a número, décimo por décimo, para a Glória de Deus.

Hoje, depois de 8 anos, escrevo pela primeira vez esta história vivida no Chile, enquanto eu era Missionário naquelas terras, eu presencie a morte na minha frente, mas ela não teve poder sobre mim, pois Deus reescreveu minha nova história de vida e me deu uma segunda chance.

Naquela fria UTI, Deus quebrou o vaso, e tornou a construir, morreu em mim muitas coisas, a vaidade de ser um Pastor na capital chilena. Vi o quanto eu não era nada! Meus pecados foram apagados em meio a dor, a saudade e a incerteza se escaparia da morte.

Assim que todos aqueles que me conheciam, principalmente parentes até 2008, dos quais nunca se importaram nenhuma vez com a minha Missão, mas sim jogaram pedras zombando da minha queda. Para que todos saibam que aquele Teófilo no verão de janeiro de 2008 morreu no Chile. Hoje sou um novo homem, mais servo, mais humilde e mais amigo de Deus.

Deus me devolveu o Ministério, aquele cheio de erros morreu comigo, hoje prego melhor, hoje sou um novo homem forjado por Deus para novos combates, hoje Deus tem usado de uma maneira sobrenatural para ajudar aos cativos, hoje sou mais quebrantado em tudo que faço.

Hoje choro mais, me comovo mais em qualquer história e para a minha alegria Deus tem aberto as portas em todo o Brasil para ensinar com o VIVER DE MISSÕES, e contar também como ele me tirou do laço da morte, para poder hoje laçar com cordas de amor aquilo que mais sei e amo fazer, MISSÕES.

De volta definitiva ao Brasil em junho de 2008 e para concluir, a primeira igreja que visitei em Santa Catarina, ouvi uma música do Nani Azevedo que dizia assim: "Eu não morrerei enquanto o Senhor não cumprir em mim, todos os sonhos que ele mesmo sonhou para mim. Eu quero viver em santidade e adoração, pois é só dele, somente dele o meu coração"

Meu tributo ao Senhor:  "Se o Senhor não estivesse do nosso lado; que Israel o repita: Se o Senhor não estivesse do nosso lado quando os inimigos nos atacaram, eles já nos teriam engolido vivos, quando se enfureceram contra nós; as águas nos teriam arrastado e as torrentes nos teriam afogado; sim, as águas violentas nos teriam afogado! Bendito seja o Senhor, que não nos entregou para sermos dilacerados pelos dentes deles. Como um pássaro escapamos da armadilha do caçador; a armadilha foi quebrada, e nós escapamos. O nosso socorro está no nome do Senhor, que fez os céus e a terra.” Salmos: 124

Teófilo Karkle é Missionário, Pastor, Escritor, Jornalista e Guia de Turismo, autor do livro VIVER DE MISSÕES, ele ministra em qualquer parte do Brasil, os 31 temas abordado no seu livro dentro das suas 360 páginas. Sua visão a respeito de Missão não será a mesma depois de ouvir o Missionário Karkle.
 
 
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